Levantamento do Sebrae e do MDS mostra que 57% dos MEIs inscritos no Cadastro Único abriram empresa depois de entrar na base social do governo federal
por Redação
10/05/2026, 13h58
Um levantamento do Sebrae, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, mostra que quase 3 em cada 10 microempreendedores individuais estão inscritos no Cadastro Único. Os dados, fornecidos pelo Sebrae e pelo MDS, indicam que cerca de 4,6 milhões de MEIs fazem parte da base usada pelo governo federal para identificar famílias de baixa renda e organizar o acesso a políticas sociais.
O número chama atenção porque mostra uma ligação direta entre assistência social, formalização e busca por renda própria. Segundo o levantamento, aproximadamente 57% dos MEIs inscritos no CadÚnico abriram CNPJ depois de entrar no cadastro. Isso representa cerca de 2,6 milhões de pessoas que se formalizaram como microempreendedoras individuais após já estarem registradas na principal base de dados sociais do país.
A leitura do dado exige cautela. A inscrição no CadÚnico não significa, por si só, que a pessoa se tornou empreendedora por causa de uma política específica. No entanto, o cruzamento das informações indica que parte relevante dos trabalhadores de baixa renda encontrou no MEI uma alternativa para gerar renda, prestar serviços, vender produtos ou regularizar uma atividade que antes poderia estar na informalidade.
O CadÚnico reúne cerca de 95 milhões de brasileiros, distribuídos em aproximadamente 42 milhões de famílias. A base concentra pessoas que acessam ou podem acessar programas sociais, como Bolsa Família, Tarifa Social de Energia Elétrica, Benefício de Prestação Continuada e outras políticas públicas. Dentro desse universo, a presença de milhões de MEIs mostra que a população de baixa renda não está apenas vinculada à assistência, mas também atua em atividades produtivas.
O levantamento aponta que 1,9 milhão de MEIs abriram CNPJ antes de ingressar no CadÚnico. Outros 2,6 milhões criaram o MEI depois da inscrição no cadastro do MDS. Esse segundo grupo ajuda a explicar a tese defendida pelo Sebrae de que políticas públicas podem funcionar como porta de entrada para formalização, qualificação, crédito e autonomia financeira.
O perfil desses microempreendedores também mostra a composição social do empreendedorismo de baixa renda no Brasil. A maioria dos MEIs inscritos no CadÚnico é formada por mulheres, que representam 55,3% do total. Pessoas não brancas somam 64%. A faixa etária mais comum está entre 30 e 49 anos, com 53% dos registros. Além disso, cerca de 51% têm ensino médio completo ou escolaridade superior.
Esses dados mostram que o MEI tem peso importante entre trabalhadores que buscam renda própria em meio a limitações econômicas. Em muitos casos, a formalização permite emitir nota fiscal, acessar conta PJ, vender para empresas, contratar serviços financeiros, participar de programas de capacitação e atuar com maior segurança perante clientes e fornecedores.
Ao mesmo tempo, a formalização não elimina os desafios enfrentados por esse público. Muitos microempreendedores começam com pouco capital, sem reserva financeira, sem planejamento comercial e com baixa margem. O CNPJ ajuda, mas não garante que o negócio será sustentável. Para que a formalização vire renda estável, o empreendedor precisa vender, controlar custos, precificar corretamente, organizar fluxo de caixa e encontrar clientes.
O setor de serviços concentra a maior parte dos MEIs inscritos no CadÚnico, com 53,9% do total. A explicação provável está no menor investimento inicial exigido por muitas atividades desse segmento. Serviços de beleza, alimentação, manutenção, limpeza, reparos, transporte, cuidados pessoais, pequenos consertos e atividades autônomas costumam exigir menos capital do que negócios com estoque elevado ou estrutura física maior.
O comércio aparece em seguida, com 26%. Nesse caso, estão atividades como revenda de produtos, pequenos pontos de venda, comércio ambulante, vendas por redes sociais e operações de baixa escala. A indústria representa 10%, grupo que pode incluir pequenas produções, confecção, alimentos artesanais, itens manuais e outras atividades produtivas formalizadas como MEI.
O dado também precisa ser analisado dentro do contexto do Bolsa Família. Segundo as informações apresentadas, mais de 2 milhões de famílias deixaram o programa em 2025. A maioria, cerca de 1,3 milhão, saiu por aumento da renda familiar. Outras 726 mil concluíram o período na regra de proteção. Esse recorte sugere que parte das famílias conseguiu elevar renda, embora seja necessário acompanhar se essa melhora se mantém ao longo do tempo.
A regra de proteção permite que famílias continuem recebendo parte do benefício por um período, mesmo após aumento de renda, desde que respeitados os critérios do programa. Essa transição tenta evitar que a pessoa recuse oportunidades de trabalho ou formalização por medo de perder imediatamente o benefício. Para trabalhadores em situação vulnerável, essa segurança pode facilitar a decisão de empreender ou aceitar novas fontes de renda.
O debate é relevante porque o empreendedorismo no Brasil muitas vezes nasce em ambiente de necessidade. Parte dos MEIs abre empresa porque identifica uma oportunidade de mercado. Outra parte formaliza uma atividade para sobreviver, complementar renda ou sair da informalidade. Os dois movimentos são diferentes e exigem políticas distintas. Quem empreende por oportunidade precisa de escala, mercado e investimento. Quem empreende por necessidade precisa, antes, de orientação básica, proteção mínima e acesso a instrumentos simples de gestão.
O presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, avalia que os pequenos negócios têm peso direto na geração de emprego, renda e inclusão produtiva. Já o ministro Wellington Dias afirma que o CadÚnico pode abrir caminho para qualificação, crédito e autonomia. A convergência entre as duas leituras está no entendimento de que a assistência social não precisa ser vista apenas como ponto de chegada, mas também como etapa de transição para renda própria.
Essa visão, porém, depende de execução. Para que o CadÚnico realmente ajude no caminho até o MEI, é necessário conectar informação, capacitação e acesso a serviços. Muitas pessoas inscritas na base social não sabem como abrir CNPJ, como declarar faturamento, como pagar a contribuição mensal, como emitir nota fiscal ou como separar dinheiro pessoal do dinheiro do negócio.
A formalização também pode gerar receio. Parte dos trabalhadores teme perder benefícios, contrair obrigações ou não conseguir manter o pagamento mensal do MEI. Por isso, políticas públicas voltadas a esse público precisam comunicar regras com clareza. Um empreendedor de baixa renda não pode depender de informação confusa para decidir se deve se formalizar.
O cruzamento entre CadÚnico e MEI também abre uma frente de atuação para estados, municípios, bancos públicos, entidades empresariais e organizações de apoio. Com dados mais claros, é possível identificar regiões, perfis e setores em que a formalização avança. Isso ajuda a orientar cursos, crédito, feiras, compras públicas, salas do empreendedor e programas de inclusão produtiva.
Para a economia, o dado central é que milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade já estão tentando gerar renda por conta própria. O desafio não é apenas abrir CNPJs. O ponto decisivo é ajudar esses negócios a sobreviverem, venderem melhor e aumentarem renda sem empurrar famílias para ciclos de endividamento ou informalidade parcial.
O levantamento do Sebrae e do MDS mostra que o Cadastro Único pode funcionar como uma ponte entre proteção social e empreendedorismo formal. A base reúne pessoas que precisam de apoio, mas também identifica trabalhadores com disposição para empreender. Quando esse potencial encontra orientação adequada, o MEI pode ser um instrumento de formalização e autonomia. Quando fica sem suporte, pode se tornar apenas mais uma obrigação para quem já vive com renda apertada.
O resultado coloca o tema no centro da agenda econômica. O Brasil tem milhões de microempreendedores formalizados, mas ainda precisa melhorar a qualidade da formalização. Abrir CNPJ é o primeiro passo. Manter o negócio funcionando, gerar renda suficiente e crescer com segurança continua sendo o maior desafio.

