Desemprego perde força como motivo para abrir empresas no Brasil

Pesquisa GEM 2025, realizada pelo Sebrae, mostra avanço do empreendedorismo por oportunidade e queda histórica da falta de emprego como razão para começar um negócio

por Redação
22/05/2026, 14h22

A falta de emprego perdeu força como principal motivação para abrir uma empresa no Brasil. Dados da pesquisa Monitor Global de Empreendedorismo 2025, realizada pelo Sebrae, mostram que 71% dos empreendedores iniciais apontaram a escassez de vagas como uma das razões para começar um negócio. É o menor patamar da série histórica para esse indicador, que já chegou a 88% em 2019 e ficou em 82% em 2020 e 2022.

O resultado indica uma mudança relevante no perfil de quem decide empreender no país. Durante anos, parte expressiva dos brasileiros abriu negócios por necessidade, muitas vezes como resposta ao desemprego, à renda insuficiente ou à dificuldade de recolocação no mercado formal. Em 2025, embora a falta de emprego ainda apareça como motivo importante, ela perdeu espaço para outras razões ligadas a propósito, oportunidade e continuidade familiar.

A principal motivação registrada pela GEM 2025 foi “fazer a diferença no mundo”, citada por 76% dos empreendedores iniciais. O índice ficou um ponto percentual acima do observado na edição anterior. A intenção de “construir grande riqueza” apareceu em seguida, com 69%. Já “continuar uma tradição familiar” chegou a 46%, o maior percentual da série histórica, com avanço de 11 pontos percentuais em relação a 2024.

Outro dado relevante é o crescimento do empreendedorismo por oportunidade. Esse indicador passou de 55% em 2024 para 58% em 2025. O conceito se refere ao empreendedor que abre um negócio após identificar uma demanda, tendência ou lacuna de mercado, em vez de começar uma atividade apenas por falta de alternativa de renda.

Essa mudança tem peso econômico porque tende a alterar a qualidade dos novos negócios. Quando a empresa nasce de uma oportunidade identificada, há maior chance de planejamento, pesquisa de mercado, definição de público, cálculo de investimento e preparação para competir. Já o empreendedorismo por necessidade costuma surgir em condições mais frágeis, com menos capital, menor estrutura e maior risco de fechamento precoce.

Isso não significa que o empreendedorismo por oportunidade esteja livre de dificuldades. Abrir uma empresa no Brasil ainda exige controle financeiro, conhecimento de mercado, acesso a clientes, regularidade nas vendas, organização tributária e capacidade de adaptação. Mesmo quando a motivação inicial é positiva, o empreendedor precisa transformar a ideia em operação viável.

A queda da falta de emprego como motivação também precisa ser lida com cautela. O índice de 71% ainda é alto e mostra que muitos brasileiros seguem enxergando o negócio próprio como resposta à insegurança no mercado de trabalho. O dado positivo está na direção da mudança: a necessidade perdeu peso, enquanto razões ligadas a propósito, oportunidade e tradição ganharam espaço.

No ranking global da motivação “ganhar a vida porque os empregos são escassos”, o Brasil passou da 22ª para a 24ª posição. A melhor situação entre as economias avaliadas foi a da Suécia, com 30%. Na outra ponta, a Argentina registrou 92% dos empreendedores motivados pela falta de trabalho. A comparação internacional mostra que o Brasil ainda convive com forte presença do empreendedorismo por necessidade, mas em patamar menor do que em anos anteriores.

A pesquisa GEM é considerada uma das principais referências globais sobre empreendedorismo. A edição de 2025 reuniu dados de 110 países. No Brasil, o levantamento é realizado pelo Sebrae e pela Anegepe, Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas. Foram feitas 2.350 entrevistas com adultos no país.

O estudo considera diferentes estágios de atividade empreendedora. Entre os empreendedores iniciais estão os nascentes, que realizaram alguma ação nos últimos 12 meses para abrir um negócio ou possuem empresa com até três meses de operação, e os novos, com negócios entre três meses e três anos e meio de funcionamento. Também são avaliados os empreendedores estabelecidos, que mantêm empresa ativa há mais de três anos e meio.

O crescimento do empreendedorismo por oportunidade pode ter efeitos importantes no médio prazo. Negócios planejados tendem a buscar melhor posicionamento, investir em diferenciação, usar canais digitais, estruturar atendimento e acompanhar custos com maior atenção. Isso aumenta a chance de sobrevivência e pode gerar impacto em emprego, renda e circulação econômica local.

Ao mesmo tempo, o Brasil ainda precisa reduzir barreiras que dificultam a transformação de intenção empreendedora em empresas sólidas. Acesso a crédito adequado, educação financeira, capacitação em gestão, simplificação tributária, orientação contábil e apoio à digitalização continuam sendo pontos decisivos para quem começa pequeno.

A motivação “fazer a diferença no mundo” também merece análise. O número mostra que uma parte dos empreendedores associa o negócio próprio a realização pessoal, impacto social, autonomia e solução de problemas reais. Essa visão pode favorecer empresas com foco em atendimento local, sustentabilidade, inovação, inclusão produtiva ou melhoria de serviços.

A tradição familiar, por sua vez, revela outro movimento. O avanço para 46% indica que muitos brasileiros estão dando continuidade a atividades iniciadas por pais, parentes ou redes familiares. Isso pode ocorrer em pequenos comércios, serviços, produção artesanal, alimentação, construção, transporte, agricultura familiar e outros segmentos em que o conhecimento passa de geração em geração.

Para a economia, a mudança de motivação é positiva quando vem acompanhada de negócios com maior capacidade de permanência. O país tem alta energia empreendedora, mas ainda enfrenta mortalidade empresarial, informalidade e baixa produtividade em parte dos pequenos negócios. A melhora do ambiente de trabalho pode reduzir a abertura de empresas por desespero e abrir espaço para iniciativas mais bem estruturadas.

O dado do Sebrae não elimina os desafios do empreendedor brasileiro, mas mostra uma alteração importante no ponto de partida. Empreender por falta de emprego continua presente. Porém, em 2025, ganhou força a ideia de abrir uma empresa por oportunidade, propósito e projeto de vida.

Se essa tendência continuar, o Brasil poderá ter um empreendedorismo menos reativo e mais planejado. O resultado dependerá da capacidade de transformar intenção em gestão, capacitação em prática e abertura de CNPJ em negócios sustentáveis.

Brasil revela força empreendedora que ainda não virou empresa

Ter o próprio negócio volta a figurar entre os maiores sonhos do brasileiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *