Pesquisa do Sebrae mostra que abrir uma empresa foi o segundo desejo mais citado em 2025, atrás apenas da casa própria e à frente de viajar, comprar carro e concluir o ensino superior
por Redação
22/05/2026, 14h35
Ter o próprio negócio voltou a ocupar posição de destaque entre os principais projetos de vida do brasileiro. Dados da pesquisa Monitor Global de Empreendedorismo 2025, realizada no país pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, mostram que abrir uma empresa foi o segundo sonho mais citado pela população adulta em 2025, com 40% das menções. O resultado deixa esse objetivo atrás apenas do desejo de ter a casa própria e à frente de metas como viajar pelo Brasil, viajar ao exterior, comprar um automóvel e concluir um curso superior.
O dado chama atenção porque mostra crescimento relevante em relação ao levantamento anterior. Em 2024, o sonho de ter o próprio negócio aparecia na terceira posição. Em 2025, subiu para o segundo lugar, com avanço de seis pontos percentuais. O movimento recoloca o empreendedorismo em um patamar já visto em outros momentos da série histórica, como em 2020 e 2022, quando a vontade de empreender também figurou entre os desejos mais fortes da população.
Segundo os dados do Sebrae, o sonho de abrir uma empresa ficou à frente de “viajar pelo Brasil”, citado por 37% dos entrevistados, “viajar para o exterior”, com 36%, “comprar um automóvel”, com 32%, e “ter diploma de nível superior”, com 25%. A ordem desses desejos ajuda a mostrar que o empreendedorismo, para uma parcela importante dos brasileiros, não é visto apenas como alternativa de renda, mas como objetivo de vida ligado a autonomia, independência e realização pessoal.
Essa leitura tem peso econômico e social. Quando abrir uma empresa aparece entre os maiores sonhos da população, o país revela não apenas disposição para empreender, mas também mudança na forma como parte dos brasileiros enxerga trabalho, renda e futuro profissional. Para muitos, o emprego formal continua importante. Ainda assim, cresce a percepção de que o negócio próprio pode representar mais liberdade, maior controle sobre a rotina e possibilidade de construir patrimônio a partir do próprio esforço.
Ao mesmo tempo, é preciso tratar o dado com equilíbrio. Sonhar em abrir uma empresa não significa, automaticamente, que esse projeto será executado com facilidade. Entre o desejo e a abertura real de um negócio existe um caminho cheio de obstáculos, como acesso a crédito, planejamento, capacitação, concorrência, burocracia, custos fixos, tributos e dificuldade para manter o caixa nos primeiros meses. O dado da pesquisa, portanto, revela intenção e aspiração, não garantia de sucesso empresarial.
Ainda assim, a força desse sonho ajuda a explicar por que o empreendedorismo ocupa lugar tão central na economia brasileira. O país reúne milhões de microempreendedores, pequenos comerciantes, profissionais autônomos e prestadores de serviço que enxergam no próprio negócio uma forma de buscar renda, melhorar de vida ou construir estabilidade financeira. Em muitos casos, o empreendedorismo nasce da oportunidade. Em outros, vem da necessidade. Mas quando aparece como sonho declarado por 40% dos adultos, fica claro que ele também carrega forte dimensão cultural.
A própria pesquisa indica que o desejo de empreender cresceu em um cenário no qual parte da população voltou a olhar com mais confiança para projetos pessoais. O Sebrae interpreta esse resultado como sinal de fortalecimento da cultura empreendedora no Brasil. A instituição também avalia que o negócio próprio passou a ser visto por mais brasileiros como possibilidade concreta, e não apenas como ideia distante.
Essa tendência também conversa com transformações no mercado de trabalho. A digitalização, os modelos flexíveis de prestação de serviço, a expansão das vendas pelas redes sociais, o avanço dos pequenos negócios e a busca por renda complementar alteraram a relação entre o brasileiro e o trabalho tradicional. Em vez de depender exclusivamente de uma trajetória formal clássica, muita gente passou a considerar a abertura de um negócio como caminho legítimo de ascensão econômica.
Mas o sonho, sozinho, não sustenta empresa. Para virar realidade com chance de permanência, o empreendedor precisa de base prática. Isso inclui conhecimento sobre gestão, preço, fluxo de caixa, vendas, atendimento, marketing, controle de estoque e uso de ferramentas digitais. Sem esse mínimo de estrutura, o sonho pode se transformar em frustração, dívida ou encerramento precoce das atividades.
Outro ponto importante é que o desejo de empreender não é homogêneo. Há brasileiros que sonham com um pequeno comércio de bairro, outros pensam em uma loja virtual, um salão, uma oficina, uma empresa de prestação de serviços, um negócio de alimentação ou até uma marca própria. Em todos esses casos, a pesquisa mostra uma disposição relevante da população para assumir papel mais ativo na própria geração de renda.
O Monitor Global de Empreendedorismo é uma das principais pesquisas internacionais sobre o tema e foi realizado em 110 países. No Brasil, o levantamento é conduzido há 25 anos pelo Sebrae e pela Anegepe. Em 2025, foram feitas 2.350 entrevistas com adultos de 18 a 64 anos. O estudo ouviu desde pessoas que ainda sonham em empreender até empreendedores em diferentes estágios, como nascentes, novos e estabelecidos.
Do ponto de vista econômico, o crescimento desse sonho também interessa ao mercado. Quando mais pessoas desejam abrir um negócio, cresce a demanda por crédito, capacitação, sistemas de gestão, maquininhas, plataformas digitais, consultoria, cursos, serviços contábeis e soluções voltadas ao pequeno empreendedor. Ou seja, a cultura empreendedora movimenta não só quem abre empresa, mas toda uma cadeia de apoio.
O dado do Sebrae mostra, no fim das contas, que o empreendedorismo continua enraizado no imaginário brasileiro. A casa própria segue em primeiro lugar, mas o negócio próprio ganhou força e voltou ao topo da lista de desejos nacionais. Isso não elimina os riscos de empreender nem resolve os desafios do ambiente de negócios. Mas mostra que, para milhões de brasileiros, abrir uma empresa deixou de ser apenas opção econômica e passou a ser também projeto de vida.

