Pesquisa GEM 2025 inclui pela primeira vez a faixa de 65 a 74 anos e mostra que esse grupo abre negócios com maior peso de planejamento e menor pressão por necessidade
por Redação
22/05/2026, 14h48
O empreendedorismo entre brasileiros de 65 a 74 anos passou a aparecer de forma específica na pesquisa Monitor Global de Empreendedorismo 2025, realizada no país pelo Sebrae em parceria com a Anegepe. O novo recorte mostra que esse grupo empreende majoritariamente por oportunidade, e não por necessidade, dado que ajuda a entender a presença crescente de pessoas mais velhas na atividade empresarial.
Segundo os dados fornecidos pelo Sebrae, quase 63% dos empreendedores iniciais de 65 a 74 anos abriram negócio por oportunidade. Já a motivação por necessidade aparece em 32,5% dos casos. Na prática, para cada 190 empreendedores seniores motivados por oportunidade, há 100 que iniciam um negócio por necessidade.
O dado deve ser lido com cuidado. Empreender por oportunidade não significa ausência de pressão financeira, nem garante que o negócio será bem-sucedido. Significa que a decisão tende a estar mais ligada à identificação de mercado, ao uso de experiência acumulada, à busca por autonomia ou ao desejo de continuar ativo profissionalmente, em vez de ser motivada principalmente pela falta imediata de renda ou emprego.
A inclusão dessa faixa etária na GEM marca uma mudança importante no acompanhamento do empreendedorismo brasileiro. Até então, os recortes tradicionais da pesquisa não detalhavam de forma específica o grupo de 65 a 74 anos. A entrada desses empreendedores no levantamento ocorre em um contexto de envelhecimento da população, maior permanência de pessoas idosas no mercado de trabalho e busca por novas formas de geração de renda após a aposentadoria ou a saída de empregos formais.
O contraste com a faixa de 55 a 64 anos é um dos pontos mais relevantes da pesquisa. Nesse grupo anterior, a necessidade ainda aparece como principal motivação para empreender, com 53,3%. Já o empreendedorismo por oportunidade representa 42,3%. Isso significa que, entre pessoas de 55 a 64 anos, para cada 80 empreendedores que abrem negócio por oportunidade, há 100 motivados por necessidade.
A diferença entre os dois grupos sugere que há perfis distintos dentro do chamado empreendedorismo maduro. Parte dos profissionais de 55 a 64 anos ainda pode estar pressionada por recolocação difícil, renda insuficiente ou transição forçada no mercado de trabalho. Já entre 65 e 74 anos, a maior presença do empreendedorismo por oportunidade pode estar associada a experiência profissional, rede de contatos, conhecimento técnico acumulado e maior clareza sobre o tipo de negócio que desejam conduzir.
Esse movimento não deve ser tratado de forma idealizada. Muitos brasileiros chegam à velhice com aposentadoria limitada, custos de saúde maiores e necessidade de complementar renda. Ao mesmo tempo, há um grupo que empreende com base em trajetória profissional, patrimônio de conhecimento e desejo de manter atividade produtiva. A pesquisa mostra uma fotografia mais detalhada desse segundo movimento, mas não elimina a vulnerabilidade existente em parte da população mais velha.
O resultado também aproxima os empreendedores de 65 a 74 anos dos mais jovens. Segundo a GEM 2025, brasileiros entre 18 e 34 anos também empreendem mais por oportunidade do que por necessidade. Entre os adultos de 35 a 54 anos, a oportunidade também predomina, embora com proporção menor, de 52%.
Essa distribuição mostra que a motivação para empreender varia de acordo com o momento de vida. Jovens podem abrir negócios por enxergar novas demandas, testar modelos digitais ou buscar autonomia cedo. Adultos em idade produtiva podem misturar oportunidade e necessidade, especialmente quando há pressão familiar, carreira instável ou desejo de aumentar renda. Já os empreendedores mais seniores podem aproveitar experiência acumulada para atuar em nichos onde conhecem melhor o mercado.
Para a economia, a presença de empreendedores de 65 a 74 anos pode ter efeitos relevantes. Esse público tende a carregar conhecimento técnico, repertório de gestão, vivência em setores específicos e redes de relacionamento construídas ao longo de décadas. Em áreas como consultoria, comércio, alimentação, educação, serviços técnicos, produção artesanal, agricultura, saúde, turismo e prestação de serviços, essa experiência pode se transformar em vantagem competitiva.
O desafio está na adaptação. Negócios atuais exigem uso de tecnologia, presença digital, controle financeiro, atendimento multicanal, meios de pagamento eletrônicos e capacidade de lidar com mudanças rápidas no comportamento do consumidor. Para muitos empreendedores mais velhos, a barreira principal pode não ser a ideia do negócio, mas a operação em um ambiente digitalizado.
Por isso, a capacitação segue como ponto decisivo. Empreendedores seniores podem ter experiência de mercado, mas precisam de atualização em gestão, marketing digital, vendas online, formalização, tributação, crédito e ferramentas tecnológicas. A combinação entre conhecimento acumulado e modernização operacional tende a determinar a qualidade desses negócios.
A pesquisa GEM é considerada uma das principais referências internacionais sobre empreendedorismo. No Brasil, o levantamento é realizado anualmente pelo Sebrae e pela Anegepe. A série brasileira começou no ano 2000, dentro de um projeto internacional que já envolveu mais de 100 países ao longo dos anos.
A inclusão do recorte de 65 a 74 anos melhora a leitura sobre uma parcela da população que tende a ganhar peso nos próximos anos. O Brasil está envelhecendo, e isso terá impacto direto no mercado de trabalho, no consumo, na previdência, na renda familiar e no empreendedorismo. Ignorar esse grupo significaria deixar de observar uma parte crescente da atividade econômica.
Para políticas públicas, o dado abre espaço para ações específicas. Programas de apoio ao empreendedorismo costumam focar jovens, mulheres, MEIs, população de baixa renda ou pequenos negócios em geral. O empreendedor sênior pode precisar de orientação própria, com linguagem adequada, suporte digital, acesso a crédito compatível, planejamento sucessório e apoio para transformar experiência profissional em negócio viável.
Também há espaço para o setor privado. Bancos, plataformas de gestão, marketplaces, empresas de capacitação, consultorias e entidades empresariais podem criar soluções mais adequadas para esse público. O empreendedor de 65 a 74 anos pode ter necessidades diferentes de um jovem que começa do zero. Em muitos casos, ele busca operação enxuta, autonomia, renda complementar e menor exposição a riscos.
O dado central da GEM 2025 não é que todo empreendedor sênior esteja em situação confortável. A informação mais importante é que, pela primeira vez, a pesquisa mostra com mais clareza que a faixa de 65 a 74 anos tem forte presença de negócios abertos por oportunidade. Isso ajuda a tirar esse grupo da invisibilidade estatística e permite analisar o fenômeno com menos romantização e mais precisão.
O avanço do empreendedorismo sênior deve ser acompanhado por indicadores de sobrevivência, faturamento, formalização, acesso a crédito e uso de tecnologia. Abrir um negócio por oportunidade é um ponto de partida melhor do que empreender por falta de opção, mas o resultado final dependerá de gestão, mercado e capacidade de adaptação.
A presença de brasileiros mais velhos no empreendedorismo mostra uma mudança estrutural no país. Pessoas com mais de 65 anos seguem participando da economia, criando negócios, usando experiência acumulada e buscando novas fontes de renda. O desafio será garantir que essa participação ocorra com informação, segurança e condições reais de continuidade.

