Noronha acelera troca do diesel pela energia solar

Projeto Noronha Verde inicia testes na rede elétrica da ilha, combina painéis solares e baterias e pode reduzir custos ligados à geração térmica

por Redação
22/05/2026, 02h55

A energia solar em Fernando de Noronha entrou em uma nova etapa com a conclusão da primeira fase do Projeto Noronha Verde. A instalação inicial reúne 4,8 mil placas solares no espelho d’água do Açude do Xaréu e já permite testes de injeção de energia na rede elétrica da ilha. A proposta é reduzir gradualmente a dependência da geração térmica, hoje ligada à Usina Tubarão, e usar baterias para dar segurança ao abastecimento.

O Projeto Noronha Verde prevê a implantação de uma usina solar fotovoltaica integrada a sistemas de armazenamento de energia. Quando concluída, a estrutura terá capacidade de 22 MWp e 49 MWh em baterias, segundo informações da Neoenergia. A empresa afirma que o volume gerado será equivalente ao consumo de cerca de 9 mil residências no continente.

A presença das baterias é um dos pontos centrais do projeto. Em sistemas solares, a geração ocorre durante o dia e varia conforme a incidência de luz. O armazenamento permite guardar parte da energia produzida para uso em outros horários, inclusive à noite ou em momentos de menor geração. Em uma ilha, esse recurso é ainda mais relevante porque a rede elétrica local não tem a mesma flexibilidade de um grande sistema interligado.

O projeto foi estruturado para substituir gradualmente a geração térmica usada no arquipélago. Hoje, a energia consumida em Noronha vem principalmente da Usina Tubarão, com uso predominante de combustível líquido. A Neoenergia informa que a nova estrutura deve reduzir a dependência desse modelo e também diminuir encargos e subsídios pagos por consumidores de energia em todo o país por meio da Conta de Consumo de Combustíveis.

Custo da geração térmica pesa fora da ilha

A mudança em Fernando de Noronha tem impacto ambiental, mas também econômico. Sistemas isolados costumam ter custo mais alto porque dependem do transporte de combustível, operação local e manutenção de estruturas térmicas. Parte dessa despesa é coberta pela Conta de Consumo de Combustíveis, encargo que ajuda a custear a geração em áreas não plenamente atendidas pelo sistema elétrico convencional.

Na prática, quando uma ilha ou região isolada reduz o uso de combustível na geração elétrica, o benefício pode ir além da conta local. A diminuição gradual da dependência da geração térmica tende a aliviar custos associados ao abastecimento, à logística e aos subsídios setoriais. Esse ponto coloca o projeto dentro de uma discussão mais ampla sobre eficiência no setor elétrico.

A promessa de conta mais baixa para moradores depende da evolução do projeto, das regras tarifárias e da forma como os custos serão tratados no sistema. Ainda assim, a troca de parte da geração térmica por solar com baterias pode reduzir a pressão de despesas operacionais ao longo do tempo. O impacto final precisa ser medido conforme a usina avance e entre em operação plena.

Projeto tem investimento e participação pública

O projeto integra o Programa Mais por Noronha, que reúne ações de energia limpa, mobilidade sustentável, inovação tecnológica e eficiência. A iniciativa envolve a Neoenergia, o Ministério de Minas e Energia e o governo de Pernambuco. O empreendimento também passou por licenciamento da Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco, com anuência do ICMBio, responsável pelas unidades de conservação federais da ilha.

A Neoenergia informou que o investimento previsto para a Usina Solar Noronha Verde é de aproximadamente R$ 350 milhões. A estrutura final deve contar com mais de 30 mil painéis solares e ocupar área de 0,3 km², segundo página institucional da companhia sobre geração renovável no arquipélago.

A WEG participa do fornecimento do sistema fotovoltaico e do sistema de armazenamento de energia. A empresa informou que o projeto terá execução em duas fases: a primeira com entrada em operação até maio de 2026 e a segunda prevista para 2027.

Descarbonização exige segurança operacional

A meta de transformar Fernando de Noronha em referência em energia renovável depende de uma operação segura. A ilha tem restrições ambientais, turismo intenso, logística complexa e uma população que precisa de fornecimento estável. Por isso, a substituição da geração térmica não pode ser feita apenas pela instalação de painéis solares. Ela exige controle, armazenamento, manutenção e planejamento de contingência.

A geração solar flutuante no Açude do Xaréu é uma das etapas mais visíveis. A Neoenergia já havia informado que a primeira usina solar flutuante do arquipélago tem potência de 622 kWp e geração estimada acima de 1.080 MWh por ano. O empreendimento foi projetado para suprir parte do consumo da Companhia Pernambucana de Saneamento na ilha e evitar emissões anuais de CO₂.

O desafio está em escalar a solução sem comprometer a operação elétrica. Baterias ajudam a estabilizar o sistema, mas precisam de gestão técnica constante. Em lugares isolados, falhas de planejamento podem causar risco ao abastecimento. Por isso, a transição deve ocorrer de forma gradual, com testes, monitoramento e uso de geração de apoio quando necessário.

Ilha pode virar vitrine para sistemas isolados

Fernando de Noronha tem valor simbólico para o debate energético brasileiro. O arquipélago é um dos destinos turísticos mais conhecidos do país e também possui forte sensibilidade ambiental. Por isso, a troca do diesel pela energia solar chama atenção porque une preservação, eficiência econômica e uso de tecnologia em um território de alta visibilidade.

O caso também pode servir como referência para outros sistemas isolados. No Brasil, há localidades que ainda dependem de geração térmica por dificuldade de conexão, distância ou características geográficas. Projetos com solar e baterias podem reduzir a necessidade de combustível, diminuir custos logísticos e melhorar a previsibilidade da operação.

A experiência, porém, precisa ser avaliada por resultados concretos. O sucesso dependerá do custo final, da estabilidade do fornecimento, da manutenção dos equipamentos, da integração com a rede local e da capacidade de reduzir subsídios sem transferir novas despesas ao consumidor.

Transição energética chega ao turismo e à vida local

A energia solar em Fernando de Noronha também interfere na imagem do destino. Para o turismo, uma matriz mais limpa pode fortalecer a percepção de cuidado ambiental. Para moradores, o ponto principal é a qualidade do serviço e a possibilidade de reduzir custos ligados à energia.

A governança do projeto será decisiva. Em uma ilha com limite ambiental e pressão turística, energia limpa não pode ser tratada apenas como vitrine. Ela precisa funcionar no dia a dia, atender moradores, garantir abastecimento para serviços essenciais e respeitar as regras de conservação.

A primeira fase do Noronha Verde mostra que a transição energética já saiu do planejamento e entrou na operação. O avanço ainda não elimina a dependência da geração térmica, mas cria uma rota concreta para diminuir o uso de combustível e testar um modelo mais limpo para sistemas isolados.

Se a implantação cumprir o cronograma e entregar estabilidade, Fernando de Noronha poderá se tornar um dos exemplos mais relevantes de uso combinado de energia solar, baterias e planejamento local no Brasil. O resultado interessa ao setor elétrico, ao turismo e aos consumidores que hoje pagam parte da conta dos sistemas isolados.

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